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Director: Jaime Costa | Chefe de Redacção: Francisco Gomes

 

Palavras de sete e quinhentos

Julho 29th, 2010 in Jornal das Caldas. Edição On-line Sem Comentários

Há dias, enquando viajava de carro, ouvia na rádio, uma locutora prenunciar o número treze (13) por qualquer coisa como “treûze”. Provavelmente,  este modismo é inspirado nas “tias de Cascais”, e contagiou alguma população feminina da qual fazia parte a locutora. Ressalvo que ela tinha uma voz bonita, e a sua prenuncia do TREÛUUUUZE (um pouco arrastado), fez-me imaginar a sua mímica labial, com os reclames de lábios, em grande plano, de bocas a comerem morangos, cerejas ou gelados de forma lasciva.
Entre muita gente, floresce a abstracção empolada como o mais natural do mundo. O mais lerdo fala como um torpe metafísico em funções. Por exemplo, em lugar de “existir” diz “substituir”, do mesmo modo que a “existência” supre a “presença” e a “inexistência” a “ carência” ou “ausência “. Transforma, a “intenção” em “intencionalidade”; e “fim” em “finalidade”, “potência” ou “capacidade” em “potencialidade”. O “competitivo” torna-se “competitividade”, o “crédito” em “credibilidade”. No lugar de “governo” põe “governação” ou “governabilidade”. A simples “obrigação” transformou-se em “obrigatoriedade”, e o “tudo” no “total” e em “totalidade”, do mesmo modo que “conjunto” em “globalidade” ou “globalização”. A “razão” cedeu à “racionalidade” e um modesto “rigor” tornou-se em “rigorosidade”. Não há “disfunção” mas “disfuncionalidade”, em vez de “emoção” há “emotividade”. O “perigo” é “perigosidade”. E “motivos” transformaram-se em “motivações”. No lugar de “limite” diz-se” limitação”. O “valor” mede-se agora pela sonora “desvalorização”, ou “valorização”. Qualquer político, não poucas vezes, recorre a afirmações do tipo: “ A mobilidade transaccional combinada” ou “A dinâmica central paralela”, asseverações que não dizem rigorosamente nada, mas fazem-no passar por entendido.
Há quem acredite que as palavras, como os rostos, encolhem-se e enrodilham e têm de fazer operações plásticas. É com estas fórmulas que alguns se erguem sobre o falante médio para obter prestígio. O que começa por um interesse néscio por notoriedade, expande-se posteriormente sem controlo. Talvez porque supostos especialistas disponham de bula para retorcer a língua ao seu gosto, perante a submissão reverente de leigos. Enquanto o intelectual se recria no veicular perante o “levar” ou “transportar”, no articular frente ao “compor” ou “ unir”, o seu interesse é problematizar quando bastaria “questionar”.

Não há politico que não dedique o dia a posicionar-se ou a emitir posicionamento, em vez de “prenunciar-se”, “situar-se” ou adoptar uma “postura” ou “decisão”. Dispõem-se a institucionalizar tudo, sem “instituir” nada. A omnipresente negociação, nunca é um “trato” nem um “diálogo”. Este modo de falar surge por vivermos tempos onde se fala demasiado. E porque a palavra pública, antes reservada a uns poucos e para ocasiões solenes, roda agora de forma incontável no espaço da publicidade política e comercial.

A feroz concorrência para captar os interesses do cliente, atordoado por geringonças, chega por igual a políticos e comerciantes para renovar em cada campanha a sua mercadoria verbal, dotando-a de maior poder de sedução. Poder que não se alcança pela precisão ou eufonia nem pela verdade, mas pela largura das palavras. O que contrasta com a redução das ideias e a limitação dos auditores.

Agora o comentarista de futebol sabe quando o jogo finaliza, mas não sabe quando “termina” e muito menos quando “acaba”. O jogo não tem “final” ou “término”, mas finalização. E os golos não se “metem”, materializam-se. Nas notícias da televisão, os bancos fusionam-se, nunca se “fundem”. Comunicados de toda a ordem propõem actuações e não “acções”. Exigem “normativas” à falta de normas invocando uma regulamentação, que é mais sonante que dizer “regras”.

O empobrecimento da língua, mais que um facto real, surge de forma generalizada. Como produto histórico é uma coisa viva. A língua tem que evoluir, mas não deve ser transformada a golpes de pedantismo, de ignorância ou pelo mimetismo dos usuários com “palavras de sete e quinhentos”. 

 

António Delgado

Professor Coordenador

ESAD- CR

a_delgado@netcabo.pt

Tags: Opinião

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