Terramoto em Áquilla. Terramoto no Haity. Tragédia na Madeira. Catástrofe no Chile. Morte do pequeno Leandro.
Não estranhem por eu associar as tragédias mundiais, a morte do pequeno Leandro. Reparem que eu não lhe chamo suicídio, porque ele “não quis fazer mal a si mesmo”, pois aí é que está o significado de “suicídio”. O pequeno Leandro quis, com o seu acto, livrar-se de todo o mal que o atormentava – julgava, assim, na sua inocência que ia fazer bem a si mesmo.
Também não quero, com as minhas interrogações fazer juízos de valor ou assacar responsabilidades a quem eventualmente as tem.
Onde estava a família do pequeno Leandro que não reparou no que se estava a passar com ele? Provavelmente o «único» a saber dos seus sofrimentos era o travesseiro da cama, à noite empapado nas suas lágrimas. Como seria o despertar do sono agitado que teria, ao pensar que um novo dia de tormentos o esperava? A criança há tempos tinha sido internada por ferimentos físicos provocados pelos maus-tratos. Foi cuidada no corpo e ninguém se importou com os danos psicológicos que lhe dilaceravam a alma!
Onde estavam os professores, vigilantes e demais pessoal da Escola que o pequeno Leandro frequentava? No dia da ocorrência, dizem que não havia porteiro e a porta da Escola estava aberta. Só os primos e o irmão se aperceberam do que se estava a passar e quando o viram correr para o rio foram no seu encalço, mas não o conseguiram deter.
O pequeno Leandro faltou à aula do último tempo da manhã, mas quando apareceu na cantina para almoçar, os maus-tratos, deviam ser psicológicos, continuaram. Na cantina, ninguém percebeu o que se passava?
Onde estão as medidas do Ministério da Educação, para pôr cobro a um fenómeno que sempre existiu, mas nunca como agora – o bullying?
Fui professora muitos anos e tais fenómenos, na altura, não passavam em claro, quer a mim quer aos meus colegas. Em muitos casos a nossa actuação atempada evitou o que agora veio a acontecer. Talvez nessa altura, as atitudes não fossem tão dramáticas, por parte das vítimas, mas deixariam marcas muito desastrosas para o desenvolvimento harmonioso das crianças, se não fossem minimizadas a tempo. Como? Com aquilo que agora não vejo: ensino personalizado. No momento actual os nossos professores estão tão inundados de burocracia que o tempo lhes falta para se dedicarem aos alunos. Estes são muitas vezes, números de uma estatística que tem de ser favorável à progressão na carreira.
Que fazer? Agora chorar o pequeno Leandro, acompanhando a família e os colegas amigos – porque os tinha e pudemos ver, na TV, uma criança da mesma idade chorando convulsivamente a morte do amigo.
Será que levantei um pouco o véu para mostrar quais as motivações que levaram o pequeno Leandro a querer morrer? Sem acusar ninguém, como expliquei de início, espero que cada um dos que de perto lidam com o fenómeno do bullying, façam um exame de consciência, para que não tenhamos de chorar novos casos »Leandro».
Maria Fernanda Barroca


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