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O Coreto do Parque

Novembro 25th, 2009 in Jornal das Caldas. Edição On-line Sem Comentários

CoretoSe formos a um dicionário para sabermos melhor o que é um coreto, para a sua definição linguística do que é e que funções ele desempenha na vida e nas relações entre os homens, dizem-nos que é um pequeno coro (origem da palavra) erigido em lugar público onde se toca, onde as pessoas comunicam aos vizinhos e amigos a mensagem de beleza que está na alma dos músicos.

No nosso parque, o Coreto era o lugar de onde ouvíamos os concertos que nos ofereciam as bandas das Caldas e essa excelente banda do Regimento de Infantaria Cinco, superiormente dirigida pelo tenente Escoto, que deliciou os homens da minha geração. Não há caldense nenhum com oitenta anos que não tenha na sua saudade uma fatia muito grande de romântica recordação do Parque daquele tempo e das noites de quinta-feira, quando o quartel estava nos Pavilhões e às 21 horas saía o grupo de músicos que ia tocar, da sua porta de armas frente ao lago.

A essa hora já o Parque estava cheio de gente, passeando na sua alameda principal, cheia dos sons vivos e alegres que cobriam as palavras das conversas, mas não perturbavam o diálogo. É que esses diálogos  eram sobretudo gárrulos, afectivos expressos em sorrisos e às vezes gargalhadas que expressavam a alegria de viver e eram expressões felizes das noites do Parque, quando as pessoas passeavam ao ar livre, respirando, vivendo a beleza dos grandes Ulmeiros e Plátanos e também sobretudo, a humana utilização da palavra, que hoje ninguém utiliza porque a conversa perturba a notícia.

Não tenho ideia de quando o Coreto foi construído, se alguma vez li essa data, varreu-se-me da memória e isso não é muito importante. O que a minha memória invoca são os grandes momentos em que esse palanque foi palco de manifestações artísticas, de saudosa qualidade que comunicavam sempre um mesmo som de beleza, perene, firmemente gravado na memória, tornando às vezes os homens um pouco mais infelizes por verificarem que muitas das coisas bonitas que a vida do Parque nos proporcionava, morreram.

Conversava-se muito no Parque. Andando para baixo e para cima, na rua principal, fazia-se a crónica diária, muitas vezes recheada de inofensivas coscuvilhices, que apimentavam a conversa. Mas vivia-se, melhor, convivia-se!

Hoje ninguém conversa. A vida alterou-se muito. A televisão matou as conversas. As horas solenes do convívio familiar são hoje dominadas pela notícia e esta pelo que demais agressivo a vida social pode ter. Agressões de crianças, roubos, assaltos, violações, estão permanentemente no auge da notícia. E uma grande parte das pessoas é muito influenciada por isso. Chegam-se a encarar os nossos semelhantes, como feras, assassinos, corruptos, quando eles são apenas uma dolorosa excepção.

Mas voltemos ao Coreto. Um edital dava-nos a informação do programa e lá líamos os nomes dos autores, numa caligrafia que sempre me fascinou.

As bandas que actuavam nas deliciosas e belas noites do Parque tinham grande qualidade e algumas me deixaram na memória dos sons recordações muito delicadas.

As bandas são formadas por instrumentos de sopro e de percussão (não têm instrumentos de corda e isso caracteriza-as como vocacionadas para interpretar as obras de características militares, como as marchas). No entanto havia nessas bandas, mercê dos seus maestros que tinham muito gosto pela música, momentos de grande beleza na interpretação de peças sinfónicas, que fugiam da área da vocação dos metais, mas conseguiam milagres de suavidade e melodia. Era muito bonito!

O Coreto foi algumas vezes ampliado. Quando as bandas não cabiam o hospital tinha uns tabuados que instalava dos lados e neles cabiam umas dezenas de músicos.

De qualquer modo a lembrança dessas noites musicais do Parque de há cinquenta anos, deixam-nos uma saudade muito grande.

E não sei até se numa época de tanta pobreza e dificuldades como foram os anos quarenta e cinquenta, não eram essas manifestações de alegria pública, e a toda a gente oferecida, que atenuavam as dificuldades da vida, com o som da música no Coreto, as correrias dos garotos, o riso das raparigas, o olhar sedutor dos rapazes, o sorriso das jovens dando-nos certezas de futuros melhores como foram.

Hermínio de Oliveira

Tags: Cultura

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