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Caldense por adopção recorda histórias em Angola

Outubro 21st, 2009 in Jornal das Caldas. Edição On-line 2 Comments

Joaquim Agostinho e a sua experiência na Guerra no Ultramar

Carlos Barroso (foto)Joaquim Agostinho Marques de Oliveira é natural de Santa Marinha, em Vila Nova de Gaia. Fez a 4ª classe no Porto e foi trabalhar para o comércio, como empregado de balcão. No Porto desempenhou funções nos Armazéns Cunha, no ramo do vestuário. Com 16 anos foi com os pais para Caldas da Rainha, onde fixou residência e antes de ir para a tropa trabalhou nos prontos-a-vestir Anselmo Fausto de Sousa, Rei das Camisas e Góia.
Esteve em Angola entre 1970 e 1972, ao serviço do Batalhão de Artilharia 2916. O 1º cabo Joaquim Agostinho, quando regressou de Angola, foi funcionário durante 13 anos na empresa de ferragens Joaquim Baptista e depois sub-gerente do Centro Comercial Barão, até 1996. O último emprego foi na empresa cerâmica A. Santos, onde fazia moldes, até sofrer um acidente de trabalho que o levou a reformar-se.
O ex-militar casou-se com 24 anos e tem dois filhos, de 36 e 41 anos, e três netos, de 3, 9 e 13 anos. Mora na cidade das Caldas da Rainha. Hoje, aos 61 anos, recorda os tempos vividos no Ultramar.
Quando chegou a altura de dar o nome para a tropa, o seu pensamento recaiu nos colegas que já tinham ido à guerra. O seu cunhado tinha arrancado para Moçambique alguns meses antes. “Só tinha duas saídas: ou cumprir o dever militar ou fugir de Portugal, como alguns fizeram, para não ir para o Ultramar. Optei por seguir a vida militar”, recorda.
Foi incorporado a 20 de Outubro de 1969 e jurou bandeira no Regimento de Artilharia de Leiria. Queria ser enfermeiro, mas disseram que não tinha habilidade e deram-lhe uma G-3 com bi-pé, que disparava de rajada ou tiro a tiro. “’Toma lá uma seringa para ti, que manda supositórios grandes para quem tu queiras’, foi a resposta que obtive”, relata.
“Fui obrigado a ser atirador. Diziam-me para não acertar no alvo se não quisesse ser chamado para a guerra. Mas ainda era uma criança e só estava a pensar em ir para o Ultramar. Nunca deixei de tentar acertar nos alvos”, conta Joaquim Agostinho.
Em Évora, para onde foi destacado, no Regimento de Artilharia 3, integrou o Batalhão de Artilharia 2916, liderado pelos tenentes-coronéis João Luís de Almeida Rebelo e António da Anunciação Marques Lopes.
“Na Metrópole não tivemos uma instrução de como era um combate corpo a corpo, e quando fui mobilizado para Angola ficaram na minha memória as palavras que ouvi de que íamos ser ‘mais carne para canhão’. Foi aí que comecei a ter consciência do risco, mas o capitão Luís Lopes Francisco, comandante da Companhia 2713, onde estava integrado, deu-nos os conselhos ideais para regressarmos sãos e salvos. Era a nossa referência e hoje, mesmo sendo tenente-coronel em Lisboa, ainda o chamamos carinhosamente de ‘capitão’. Era o nosso ‘pai’”, descreve.
A 27 de Abril de 1970, às 12h30, partiu no “Pátria”, o barco que o levaria a Luanda. O graduado que comandava o seu pelotão – o 1º – era o aspirante Miguel, que mais tarde seria substituído pelo alferes Moreira. Os furriéis Piedade, Mário e Murraças eram os sargentos que os acompanhavam.
O camarada que mais o marcou era de Peniche. “Fomos os dois dar o nome à tropa ao mesmo tempo, apresentámo-nos em Leiria e ficámos sempre juntos, um na cama de cima, outro na cama de baixo nos vários quartéis por onde passámos na Metrópole e no Ultramar. E frequentámos os dois a escola de cabos em Évora. Nunca me esqueço o nome completo dele – Vítor Manuel Martins da Cruz”, indica Joaquim Agostinho.
Chegaram a Angola a 7 de Maio, à meia-noite. Entre outros, ficou rodeado pelo soldador corneteiro Hélder e o soldado atirador João, das Caldas da Rainha, e os 1º cabos Álvaro e Martins, de Alvados, e Varela, de Vizela.
No quartel do Grafanil, onde se concentrava a tropa toda que chegava ao território antes de ser distribuída pelos destacamentos, a primeira cama foi o chão e logo aí o primeiro susto. “Não tínhamos onde dormir e juntámos a roupa no chão para nos deitarmos. Antes disso fomos arejar até à cidade. Quando regressámos, não havia luz e quando levanto a roupa do chão sinto uma coisa mole na mão. Pensava que alguém tinha feito necessidades ali. Um colega acende um isqueiro e aparece uma cobra cuspideira, que vim a saber era uma das mais perigosas, e que atingiu um camarada, que teve de voltar para a Metrópole passados alguns dias depois por causa do estado de saúde”, lembra.
Foram destacados para o Luso a 25 de Maio. A missão era escoltar as colunas e proteger os civis nas suas deslocações.
Desencadearam a 5 de Julho a operação “Luandrico”. “Descobrimos que os “turras” estavam a fazer caxipembe (aguardente) e quando chegámos ao local eles fugiram e nós destruímos tudo. Conseguimos apanhar dois deles e entregámo-los à polícia de Camaxoco. Não chegaram a haver disparos”, sublinha.
Os dias corriam sem grandes sobressaltos, até 19 de Julho, quando receberam a ordem para irem para “um sítio que toda a gente não queria ir”. “Era horroroso. Falo de Cazage, onde estava o destacamento da zona operacional. Ali ficámos o resto da comissão até virmos para a Metrópole”, faz notar.
Foi em Cazage que Joaquim Agostinho viveu os piores momentos. 5 de Setembro de 1970 foi o dia da primeira morte na companhia. “Descobrimos um aquartelamento de “turras”. Formámos a primeira linha de fogo, em ‘U”, que evitava que o inimigo fugisse para as laterais e só tivesse um caminho: para trás.
Existiam muitas árvores e começámos a desviarmo-nos. Fomos atacados e ficámos para trás. Com receio de sermos confundidos pelos nossos camaradas começámos aos gritos, a correr e a disparar. Chegámos às cubatas, as casas dos “turras”, que já estavam destruídas. Vejo o soldado Fernandes a sair ferido da cubata e fomos lá buscá-lo. Meto-o às costas e fujo com ele em cima de mim. O furriel Coutinho tentou os primeiros socorros mas para isso tinha de deitar o soldado. Eu deitei-me de barriga para baixo e fiz de cama, para o Fernandes não ficar no chão. O corpo ficou em cima de mim e tentaram reanimá-lo. Não conseguiram”, pormenoriza.
Joaquim Agostinho desabafa: “Esta morte marcou-me porque antes de irmos para esta operação, tínhamos experimentado as armas e estive a falar com o Fernandes. Ele era casado e nós no Ultramar dizíamos sempre a brincar: ‘Se houver a falta de alguém, que seja a tua e não a minha’. Foi uma frase que tínhamos dito um ao outro antes desta operação. Infelizmente a falta foi a dele. Morreu em cima de mim, nas minhas costas”.
“Pedimos apoio a um helicóptero para ir buscá-lo, porque estávamos a dois dias de distância do aquartelamento. Não foi possível e tivemos de ser nós a transportá-lo. Fizemos-lhe a guarda de honra numa capelinha que lá havia e a morte dele ainda está em cima das minhas costas”, recorda.
E sustenta: “Ele não era para participar nesta operação, porque estava proibido, uma vez que o nosso capitão Francisco o tinha castigado. Mas na altura dessa operação, o capitão tinha-se ausentado para a Metrópole para assistir ao nascimento de um filho e o Fernandes aproveitou para pedir aos dois oficiais responsáveis de serviço para participar na operação. Ele queria apanhar armamento do inimigo para mostrar ao capitão e conseguir dessa forma o levantamento do castigo. Saiu-lhe caro”.
Joaquim Agostinho pega nas palavras do capitão Francisco: “Ele dizia: ‘Prefiro sempre um cobarde vivo do que um herói morto’. Pode parecer uma frase anti-militar, mas significa que ele não queria ninguém a aventurar-se a apanhar armamento”.
“Não sabemos como morreu, porque nós mandávamos tiros para dentro das cubatas ser vermos quem lá estava dentro, se era uma senhora de 80 anos ou uma criança de 2 anos, porque recebíamos tiros e tínhamos de responder com o mesmo armamento. Não sei se fomos nós que o matámos ou se foi o inimigo”, admite.
Ainda no Cazage uma vez teve de usar uma mulher e uma criança como escudo, no meio de um tiroteio em pleno mato. “Tínhamos descoberto um trilho em que o inimigo circulava. Os ‘turras’ nunca vinham em grupos grandes e preparámos uma emboscada. Só que demorou horas infinitas e fomos fazendo turnos. De repente, quando eu estava sem a G-3, que tinha emprestado a um soldado que levava a bazuca, começou o tiroteio e tive de me esconder, deitando-me com a mulher e a criança no chão para não haver tiros para a zona de capim onde estava”, relata.
E prossegue: “Os ‘turras’ deitaram fogo ao capim e tivemos de fugir às chamas. O pelotão reuniu-se e foi buscar as mochilas que tinha deixado agrupadas no chão e vimos que sobrava uma. Era a do soldado Boaventura, que tinha adormecido com o cansaço e o calor intenso quando estávamos a preparar a emboscada. Tantas horas esperou que adormeceu. Viemos a encontrá-lo a dormir um sono pesado e tivemos de abaná-lo para acordar. Se não fosse a mochila, teria lá ficado”.
O ex-militar passou por outros episódios. Numa mina, um soldado de outro pelotão da sua companhia perdeu uma perna, ao atravessar uma ponte de madeira sobre um riacho.
“Eu nunca fiquei ferido e também não sei se matei. A nossa defesa era disparar contra o inimigo. Se alguma bala acertava não era nosso problema. O problema era sair do sítio a são e salvo com os colegas. Mas tivemos uma criança ferida em combate, atingida por um tiro, e tomámos conta dela no nosso aquartelamento durante vários dias, até ela ficar boa. Ficámos chocados com o que aconteceu, mas foi uma situação de guerra que não pudemos evitar. Já o cenário de pobreza da população nos causava um certo constrangimento. Ver, por exemplo, o povo a pedir os nossos restos de comida ou até a comer ratos, era algo que mexia com os nossos sentimentos”, manifesta.
Joaquim Agostinho confessa que “também houve dias no mato em que passámos fome”. “Quando regressávamos ao aquartelamento os militares que ali permaneciam preparavam um petisco para nos animar e dar forças. Um dia trouxeram pires com carne cortada aos bocados para acompanhar as cervejas. Depois de comermos disseram que era carne de cobra e foram buscar a pele para nos mostrarem. Nunca me passou pela cabeça que era um bicho desses. A carne era tenra, saborosa e se houvesse mais comia. Mas ao dizerem-nos aquilo, corremos todos para um canto para deitar tudo para fora. Vomitámos pelo nojo”, conta.
O regresso à metrópole aconteceria a 8 de Agosto de 1972. Após 2 anos e 324 dias de serviço militar, passava à disponibilidade.

Francisco Gomes

Tags: Sociedade

2 comentários até ao momento ↓

  • 1 ruben // Out 23, 2009 at 10:28 am

    eu gostava de saber o numero do senhor joaquim agostinho marques oliveira pois eu estive com ele na guerra e eu gostava de o rever assinatura de o senhor que fez o comentario mas fiz eu porque ele nao tem um computador.assinatura agostinho madueira pinto

  • 2 Redactor // Out 23, 2009 at 4:36 pm

    962379247

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