A mesma cidade que recebeu em Outubro de 2008 uma bandeira de prata que a aponta como pertencente à “Rede Nacional de Cidades e Vilas com Mobilidade para Todos” continua a ter obstáculos nos acessos para deficientes e pessoas com dificuldades de locomoção.
A cidade é Caldas da Rainha, por onde o JORNAL das CALDAS acompanhou durante uma manhã Paulo Duarte, deficiente que está entregue aos cuidados do Lar do Montepio Rainha D. Leonor e que se agarrou à vida numa cadeira de rodas, depois de aos 33 anos ter sofrido um despiste de automóvel, no dia 22 de Agosto de 1997, na estrada que liga Caldas da Rainha à localidade do Arelho, em Óbidos.
Paulo Duarte, agora com 45 anos, mudou muita coisa no seu dia-a-dia, mas aquilo que mais lhe custa é não ter uma vida mais ou menos autónoma na rua, o que muito se deve aos obstáculos com que se depara por onde passa.
“Geralmente as pessoas ajudam, mas nem toda a gente está disposta a ajudar e depois há outras pessoas que não sabem como”, começou por referir Paulo Duarte, quando começámos uma pequena viagem por alguns espaços de utilização pública.
O primeiro obstáculo foram os vários passeios e por isso, optou-se constantemente em andar pela estrada (foto 1). “Enquanto a polícia me deixar andar na estrada vou andando, porque nos passeios não consigo andar em todos”, sustentou.
“A principal dificuldade é subir e descer os passeios. Num lado são altos e do outro são baixos. Depois as rodas ficam presas em certos locais. No passeio temos sempre obstáculos, publicidade ou postes” (foto 2).
A entrada em edifícios públicos é outro problema. Correios, Segurança Social, Tribunal, Finanças e Câmara Municipal são alguns exemplos.
“Nos Correios não consigo entrar, tenho de esperar que alguém lá dentro me veja para me virem atender na Rua, ou então esperar que alguém me ajude a entrar. Na Casa do Povo acontece a mesma coisa” (foto 3).
Também nas Finanças “entro até ao rés-do-chão, quando tem as portas abertas, porque agora que têm umas molas fortes que fecham as portas eu não as consigo abrir. O que vale é que há sempre uma pessoa que abre a porta ou a segura para eu entrar. Lá dentro, se tenho algum assunto a tratar no primeiro andar, um funcionário desce e atende-me”, descreveu (foto 4).
Mesmo ao lado, no edifício da Câmara, existem alguns atendimentos no rés-do-chão, mas quando se pretende deslocar aos serviços centrais, ser atendido por um vereador ou ir mesmo aos Serviços Municipalizados as dificuldades aumentam, porque há que ser utilizado elevador, que tem pouco espaço, e a porta não é de fácil abertura. Ainda assim estão funcionários na portaria que auxiliam ou dão indicações (foto 5).
Após os Paços do Concelho, deslocámo-nos mesmo ao lado, ao edifício do Tribunal. Ainda nem lá tínhamos chegado, “tropeçámos” num carro estacionado na passadeira, com o condutor no seu interior, que assistiu à passagem de Paulo Duarte, tendo saído da viatura quando começámos a tirar fotografias, questionando apenas se como estava mal parado, dava para passar a cadeira de rodas (foto 6).
Ultrapassado este obstáculo, rumo ao edifício do Tribunal, para chegarmos até à rampa de acesso, que foi elogiada pelo Paulo Duarte, foi necessário percorrer, sempre pela estrada, um local onde o passeio fosse mais baixo, o que não encontrámos, tendo Paulo Duarte, sido ajudado a subir o passeio por um munícipe (foto 7).
À entrada do Palácio da Justiça um vigilante ajudou Paulo Duarte, por causa dos dois degraus interiores. Verificou-se um progresso no acesso aos pisos superiores, pelo elevador colocado e no atendimento a pessoas com mobilidade reduzida, pelo rebaixamento do balcão. Porém, a nota negativa é o acesso que ainda não foi totalmente rectificado, apesar de já terem sido feitos ofícios no sentido de resolver este problema (foto 8).
Para se deslocar ao edifício da Casa do Povo ou Segurança Social o calvário é semelhante. Também são sentidas dificuldades em ir “à farmácia, padaria, papelaria ou ao café”.
Também não consegue aceder a qualquer serviço da PT, porque encontra uma escadaria enorme para ultrapassar (foto 9).
Nos transportes públicos verifica-se mais um incómodo. Reconhece-se que existe sempre a mão amiga de um estranho e a boa vontade de alguns motoristas, mas Paulo Duarte gostaria de ter mais autonomia se a forma de entrar no autocarro fosse outra.
“O Toma, embora seja grátis, é sempre um problema para entrar e sair. Não gostamos de dar trabalho às pessoas. Acho que temos os nossos direitos e esses deveriam ser respeitados. Depois o transporte também não passa perto do Lar do Montepio e assim opto por não o usar”, desabafa. Uma vez no interior do Toma, depois de uma demorada entrada, Paulo Duarte conta que “até se anda mais ou menos, mas não temos a percepção do nosso local de paragem, porque os vidros estão muito altos e não conseguimos ver onde vamos. Se viermos sozinhos perdemos a vontade de andar nisto. Temos de andar sempre com o guarda-costas atrás”, diz (foto 10).
“Quero ir à piscina municipal ou à dos bombeiros e não posso ir porque não há acesso para deficientes, nem para assistir a eventos que se passem lá dentro”, relata Paulo Duarte, que se sente discriminado por não poder assistir a eventos desportivos em muitos pavilhões ou campos de futebol.
Paulo Duarte defende que deveria ser colocada uma informação ou o símbolo nos locais de acessibilidade à entrada dos edifícios para que as pessoas possam saber que os comerciantes e dirigentes têm feito melhoramentos e estão atentos às pessoas com este tipo de deficiência.
“A pouco e pouco as coisas vão melhorando, mas muito lentamente”, considera, em jeito de balanço das condições de acessibilidade na cidade das Caldas.
Dos melhoramentos que assinala como positivos, aponta o Multibanco, que além de terem sido rebaixados já tem indicações para pessoas com deficiência visual (foto 11).
Toda esta condição da acessibilidade e mobilidade só poderá alterar-se se o Estado for o exemplo e aprove um diploma que puna efectivamente quem não cumpra com as normas europeias e haja um organismo que tenha autoridade suficiente para fiscalizar e punir os infractores.
Carlos Barroso


11 comentários até ao momento ↓
1 diogo // Set 13, 2009 at 5:24 pm
Apoio totalmente esta noticia. Parem de falar e façam algo que se veja, srs. “Presidentes”. Andem 1 dia de cadeira pelas ruas das Caldas…
2 Bruno // Set 14, 2009 at 10:23 am
Eu apoio totalmente esta noticia. Falam, falam, falam, mas não dizem e nem fazem nada. Exprimente Sr. Presidente andar um dia de cadeira de rodas e ter de andar na estrada por más acomodações nos passeios! Exprimente! Por isso exijo que façam alguma coisa para remediar esta situação desagradável.
3 Fátima // Set 14, 2009 at 10:27 am
Eu sou Caldense e sintu-me triste com a falta de segurança e condições que os nossos defecientese idosos têm de enfrentar todos os dias pois bem haja a esta entrevista com o senhor Paulo Duarte, faço votos que os nossos Presidentes de Junta e Câmara façam alguma coisa de bem.
4 Manuel // Set 14, 2009 at 10:40 am
Vamos lá Sr. Presidente das Caldas!! Fazer alguma coisa para melhorar a vida dos deficientes que bem precisão. Obrigado
5 angelica // Set 14, 2009 at 10:33 pm
Senhor Presidente, espero que se sensibilize com esta reportagem do Jornal das Caldas, que fala nos obstáculos de acesso a deficientes e pessoas com dificuldades de locomoção,o Jornal já fez a sua parte mostrando essa realidade,agora é a sua vez Senhor Presidente, mostrar através de sua influencia como governante que pode mudar essa situação na cidade de Caldas da Rainha, pois fazendo isso não é um favor que será feito e sim um dever,em respeito a todos os deficientes e pessoas com dificuldade de locomoção.
Angelica.
6 Magnólia Maia // Set 15, 2009 at 3:32 am
Excelentíssimo Senhor Presidente. A luta para que os portadores de deficiência tenha as mesmas condições e oportunidades de direitos igualitários deve ser vistos com um olhar mais especial por partes dos governates. É necessário que os Portadores de Necessidades Especiais sejam vistos e respeitados em suas diferenças. e que os direitos aos deficientes, sejam compreendidos antes de tudo, com respeito ao modo como as relações sociais se estruturam em sociedade. A realidade para o portador de deficiencia é árduo, injusto e anti-social. Faz-se necessário haver uma mudança já. É preciso haver acessibilidade, mobilidade, inclusão,interação cidadania e e integração do “deficiente” na sociedade. propondo melhores condições de vida., espaços públicos,no mobiliário urbano, na construção e reformas de vias, nos meios de transportes e de comunicação. Facilitar integração é sinônimo de dignidade, de exercício de cidadania. Continue a a lutar Paulo Duarte incessantimente. Atenciosamente: Magnólia Maia
7 Paulo Duarte // Set 15, 2009 at 3:19 pm
Senhor Presidente da Cambra das Caldas e os Senhores Presidentes das Juntas das Freguesias das Caldas e Senhores vereadores deixo aqui um convite para uma manhã ou uma tarde irmos todos passearmos de cadeira de rodas nas ruas da Cidade para vermos as dificuldades que á. Pois fico aguardando uma resposta pelo o jornal sem mais assunto o meu obrigado????????????
Paulo Duarte
8 Mara Soares // Set 15, 2009 at 8:22 pm
Realmente, esta reportagem é muito oportuna… Numa altura em que tanto se promete para “comprar” votos, vamos lá ver quem realmente fala a verdade!!!
Espero que os nossos presidentes, vereadores e demais responsaveis e “poderosos” façam alguma coisa por estas pessoas, que tão pouco têm a pedir…
9 Conceição Jerónimo // Set 15, 2009 at 8:25 pm
Fico muito triste por ver que todas as entidades responsaveis para melhorar, nem que seja um pouco, a qualidade de vida que estas pessoas pedem… E o que pedem é tão pouco, para alguém que pode fazer tanto….
Nesta altura de eleições espero que os nossos presidentes, olhem bem para todos os erros que cometeram e se possam redimir, fazendo algo por alguém que pede condições de locomoção…
10 Mara Soares // Set 15, 2009 at 8:33 pm
Realmente é nestas alturas que vimos que aqueles que tanto prometem, nada fazem….
É triste ouvir dizer que promete; que faz; que melhora; que altera…. e no fim fica tudo igual..
Que custa gastar algum tempo e dinheiro, para melhorar, nem que seja só um pouco, as condições para estas pessoas que têm que se movimentar por intermédio de uma cadeira de rodas????
Deixo aqui esta pergunta e espero que em tempo de eleições alguém faça alguma coisa…
11 ZITA ARAUJO // Out 18, 2009 at 4:11 pm
será que vou ter o mesmo problema aqui no Porto?
Comente esta notícia