Caldas da Rainha, Óbidos, Alfeizerão, São Martinho do Porto, Benedita, Bombarral, Peniche e Cadaval, Oeste

Director: Jaime Costa | Chefe de Redacção: Francisco Gomes

 

Histórias da Guerra Colonial

Julho 22nd, 2009 in Jornal das Caldas. Edição On-line 4 Comments

Caldense António Garcia recorda momentos em Angola

guerra1.jpgAntónio da Fonseca Garcia, de 57 anos, é natural e residente nas Caldas da Rainha. Fez a quarta classe e antes de ingressar na vida militar era empregado de balcão nas Caldas da Rainha, na empresa J. L. Barros, tarefa que desempenhava desde os 13 anos. Tinha 19 anos quando foi chamado para a tropa. Quando regressou de Angola, tornou-se motorista de pesados na empresa de produção de cimento Cimpor, até se reformar. É proprietário do café Favo de Mel, nas Caldas da Rainha.
Casou-se com 24 anos. Tem dois filhos, de 19 anos e 31 anos, e uma neta de 16 meses.
Alistado a 6 de Agosto de 1973, foi incorporado em Aveiro, no Regimento de Infantaria 10. Depois da recruta foi para Tomar, para o Regimento de Infantaria 15, para efectuar a especialidade no pelotão de morteiros. Esteve ainda em Chaves, no Batalhão de Caçadores 10.
Partiu para Angola como soldado, no Pelotão de Morteiros 5076. “Estávamos no final de 1973 e já não ia passar o fim de ano com a família. A partida para Angola estava marcada para 28 de Dezembro. Já namorava com aquela que viria a ser a minha esposa. Custou a ir mas tinha de ser, não se podia dizer que não e também havia o sentimento de patriotismo”, recorda.
“Eu era apontador de morteiro, uma arma de tiro curvo e fogo potente capaz de bater alvos desenfiados ou em contra encosta. Tinha de regular onde a granada iria cair e mandar tudo pelos ares. Utilizávamos morteiros 10,7 e as principais preocupações começavam por ter uma boa posição de tiro, com facilidade de camuflagem para não denunciar a nossa posição e com rápida actuação”, descreve.
“Era um trabalho de equipa entre o apontador e o municiador, para dar a um morteiro os correctos elementos de tiro, como ponto de pontaria, direcção, ângulo de tiro, número de tipo de granadas a preparar, espoleta a usar, carga a empregar, e desencadeamento de velocidade do tiro. Disparei centenas de vezes e não sei se provoquei mortos ou não, mas devo ter causado muita mossa”, refere.
O pelotão era constituído por 33 homens e António Garcia lembra-se de que havia dois da região – “o Avelino Brites, de Fervença, Alcobaça, e o José António, de Peniche”. Entre outros, lembra-se “do Abaças, de Trás-os-Montes, que era condutor, do Elvira, que guiava as Berliers, do Cristóvão, do José Ferreira, que morava no Entroncamento, do José Serrenho, que era do Algarve, do Freitas, da zona de Aveiro, todos soldados. Os graduados eram os furriéis Teixeira e João de Deus, e o alferes Luís era quem comandava o pelotão”.
Partiram de Lisboa num avião Boeing 747 e depois de aterrarem no aeroporto em Luanda as primeiras imagens eram de um cenário diferente ao que estava habituado – “vegetação abundante, da qual sobressaíam as árvores de copa abundante e com frutos compridos e escuros”. “Pelas ruas sem passeios e com o chão de cor vermelho barrento, corriam atrás de nós miúdos pretinhos, quase todos iguais uns aos outros”, relata.
Era o primeiro contacto com o território, no percurso entre o aeroporto e o Grafanil, a poucos quilómetros de distância, onde estacionavam todas as tropas chegadas a Luanda.
O calor apertava e nas camaratas enfiaram-se debaixo dos chuveiros de água fria. O fardamento de Inverno, que levavam da metrópole, foi trocado por outro mais leve: calções e camisa de manga curta, que em cuecas não se podia andar.
A passagem de ano foi sem grande festa, mas no seu aniversário – a 5 de Janeiro, pagou cervejas a todos os camaradas. Completou lá dois aniversários.
Os primeiros quinze dias em Angola foram passados no Grafanil, até serem destacados para Sanza Pombo, no Uíje, no extremo norte do país. No aquartelamento estavam as companhias de transportes, de morteiros, de cavalaria e artilharia.
“Era mesmo mato, onde tivemos guerra a sério. Todos os dias ouvíamos tiros e estávamos à coca nas casernas. Fazíamos patrulhas e vigias, e escoltávamos as viaturas de reabastecimento aos camaradas que estavam noutros postos”, conta.
Em finais de Março de 1974 sofreram um ataque enquanto estavam em Quicua. Vigiavam um aquartelamento e de repente, do outro lado do rio Cuango, no Zaire, começaram a ser disparados morteiros, sem se ver nada. A maior parte caiu dentro de água e os outros causaram alguns estragos, mas ninguém ficou ferido. Ripostaram também com morteiros, sem saber se acertavam.
Andavam de quinze em quinze dias a alternar entre Sanza Pombo, Quicua e Quimariamba. Numa das deslocações, quando iam para Quicua, em Abril, encontraram camaradas de uma companhia de cavalaria que tinham sido alvo de uma emboscada. “Vi pelo menos dois soldados mortos”, recorda. Foi o resultado de uma mina que tinha rebentado.
Ao seu pelotão nunca aconteceu nada. “Não tivemos baixa nenhuma. Era o “pelotão com sorte”, como nos designávamos. Mas houve mais assim, entre pelotões que sofreram baixas em combate ou em acidentes”, afirma António Garcia.
A dado momento já estavam saturados de estar no meio do calor, a comer todos os dias massa e arroz e cheios de saudades da metrópole. “Receber uma carta era uma alegria e dava-nos mais ânimo”, exclama.
No mato não sabiam o que se passava em Portugal, mas ficaram logo a saber que tinha havido a Revolução dos Cravos.
“Os turras, que dantes eram o nosso inimigo, já não eram os nossos adversários, mas ainda andámos alguns tempos com a espingarda aos ombros e com olhos de desconfiança”, indica.
Depois do 25 de Abril de 1974, as operações cingiam-se a acções de reconhecimento e uma das ocorrências mais marcantes foi quando caiu uma avioneta que transportava o correio, que aterrou mal no chão de areia e partiu uma roda, em Quimariamba. O piloto, que ia sozinho, ficou ferido.
No meio do mato perdia-se a noção do tempo, mas arranjaram um passatempo – “um miúdo pretinho que estava connosco em Sanza Pombo. O André tinha sete ou oito anos e morava com os pais numa sanzala. Mas a vida lá era uma miséria e um dia apareceu no quartel cheio de fome. Encostou-se à gente, passou a ficar no quartel e a andar connosco no meio do mato. Ai de quem lhe fizesse alguma coisa. Era o nosso ‘bijou’ (jóia), um pretinho pequenino que adoptámos como mascote. O comandante do aquartelamento, o tenente-coronel Teixeira, até lhe deu uma farda”.
António Garcia e os colegas aproveitavam o rio Cuango para tomar banho. Mas quando entravam para a água havia sempre um ou dois camaradas que estavam atentos a movimentações no rio por causa dos crocodilos. “Mas não vi nenhum”, assegura.
No Verão de 74 foi atingido pelo paludismo. Não era de admirar. Havia mosquitos gigantes por todo o lado a sugarem-lhes o sangue e deve ter sofrido muitas picadelas. “Fiquei um pouco preocupado, porque é uma doença potencialmente mortal. Estive quinze dias de cama e recuperei”, lembra.
Em Outubro percorreu quatrocentos quilómetros para estar um dia com o seu amigo e futuro cunhado António Feliciano, que se encontrava na companhia de transportes Tigres de Sanza, em Santa Eulália. “Soube que ele estava lá através de uma carta da minha namorada/futura esposa. Ele namorava com a irmã dela e eu pedi ao meu comandante em Sanza Pombo se podia ir vê-lo. Disse-lhe que era o meu irmão e o tenente-coronel Teixeira disponibilizou-me um motorista. Não levámos arma nenhuma e também não fomos atacados. Os momentos mais conturbados tinham passado. Foi uma alegria vê-lo. Ele era condutor”, recorda.
Os últimos seis meses em Angola foram passados em Luanda, na Fortaleza de São Miguel. No penúltimo dia de permanência, foram apanhados no meio de um tiroteio entre o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola). “Não era nada connosco mas tivemos de andar debaixo de carros para escapar aos tiros. Até nos chegaram a pedir a identificação”, frisa.
“Estava a ver que era na despedida que as coisas iam correr mal”, comenta. Mas todo o pelotão, tal qual como chegou a Angola, regressou à metrópole, são e salvo. Desta vez de barco. Partiram a 9 de Maio de 1975 e chegaram a Lisboa a 22 de Maio.
“A minha caderneta militar não tem nenhum castigo. Cumprimos a nossa missão, e apesar da agitação que havia em Angola foi uma experiência tranquila”, considera.
António Garcia nunca mais teve notícias dos seus camaradas e gostava de voltar a vê-los e recordar mais histórias lá passadas. Há muita coisa que se passou e que já não se lembra, nem de datas nem de nomes, só que não tem contactos nenhuns dos ex-militares.
Quanto a marcas deixadas pela guerra, António Garcia garante que não sofreu de stress, mas admite que nos primeiros tempos na Matoeira, aldeia das Caldas da Rainha onde morava, quando havia pessoas à caça, na altura em que disparavam ele atirava-se logo para o chão. “Até quando havia festas e deitavam foguetes acontecia isso. Ainda andei um ano assim”, confessa.

Francisco Gomes (texto)
Carlos Barroso (fotos)

Tags: Sociedade

4 comentários até ao momento ↓

  • 1 Joaquim marques // Ago 1, 2009 at 9:27 pm

    Depois de ler os comentarios do Sr. Antonio Garcia,fiquei admirado pelos acontecimentos naquela região,eu tambem estive em quicua,santa Cruz,Foz do Massanza,junto ao rio Cuango,do outro lado ficavao Zaire, pertencia a Companhia de Caçadores 2606,Batalhão de caçadores 2889 de Novembro 1969 a Junho de 1971,foi uma regiao muito atribulada com a guerra a partir de 1970,mas tambem tivemos sorte,nunca fomos atacados,nós a comp.2606,em quicua,enquanto outras do mesmo bat.foram atacadas e com baixas,mas fiquei admirado com o comentario do Sr. Antonio Garcia,depois que saimos de lá nunca mais tivemos noticias desta região, Um abraço, Joaquim Marques

  • 2 José Nunes Valente // Ago 3, 2009 at 6:55 pm

    O primeiro de todos os confrontos da guerra colonial teve lugar na povoação de Cunda-Ria-Baza, no dia 2 de Fevereiro de 1961, pelas 11 horas. Ali se registaram os primeiros tiros e os primeiros mortos da guerra. Por razões desconhecidas, todos os historiadores e autores ignoram ou omitem esse facto.
    Publiquei recentemente um livro com o título ” ANGOLA, AFINAL, ERA DELES” (Chiado Editora) , que proporciona uma visão do início da guerra e descreve em pormenor esse confronto.
    José Nunes Valente

  • 3 Velhinho da Quicua // Mar 8, 2010 at 6:57 pm

    Camarada Joaquim Marques
    Saudações veteranas.
    Estive na Quicua de 67/69,no mat de guerra.
    Obrigado pela sua narrativa da zona.

    Um forte abraço.

  • 4 Maia // Ago 18, 2011 at 10:35 pm

    camarada Joaquim Marques eu não estive em
    Quicua mas sim em Massau e Quimariamba pela companhia de caç 2605 batalhão de caç 2889 de 1969 a 1971 pois digo que entre Massau e Quimariamba tivemos uma emboscada no dia 5 de Março aonde morreram 3 militares e 1condutor civil que fazia o reabo sem mais saudaçoes amigas

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