Ex-combatente luta contra stress de guerra
Furriel de artilharia destacado em Moçambique entre 1973 e 1975, José Morgado Vieira, 56 anos, natural e residente em Tagarro, freguesia de Alcoentre (Azambuja). Casado, tem três filhos, de 13, 26 e 29 anos. Saiu de casa aos 17 anos e foi trabalhar para Lisboa como escriturário. Quando regressou de Moçambique, trabalhou numa fábrica de detergentes, foi agricultor e tornou-se bancário, profissão que exerce desde 1984, sendo gerente do balcão da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de A-dos-Francos, nas Caldas da Rainha.
Foi incorporado em Janeiro de 1973 em Vendas Novas, no curso de sargentos milicianos. O comandante do quartel era o coronel “Oliveirinha”, dos Comandos. “Era a tropa mais especial que havia e nós também a tivemos”, conta José Vieira.
“Para mim, o primeiro confronto de “guerra” foi ainda cá em Portugal, por causa da preparação. Tive uma “guerra psicológica”, que transformou o meu ego numa máquina de combate, em que me tiraram todos os valores, nos seis meses de formação no curso”, sublinha.
“Prepararam-me para a guerra colonial como uma máquina de matar e destruir. O inimigo era para abater sem contemplações, quase como o Hitler quis fazer aos judeus. Fomos completamente destroçados de todos os nossos valores culturais, sociais, familiares e de amizade. Tudo isso nos roubaram através do sofrimento e da dor, do passar fome e sede, de não nos deixarem dormir. Foi uma tortura psicológica. Foi a principal “guerra” por que passei, mais do que a “guerra balística”", conta.
Durou seis meses. Como sargento ministrou duas recrutas. Ao fim de um ano, quem não era mobilizado para as colónias já não ia e ficava. Quando faltavam apenas onze dias para passar à desmobilização, a 19 de Dezembro, é chamado para arrancar para Moçambique.
“Estranhei a situação, mas informaram-me de que eu ia em rendição individual, isto é, ia substituir alguém que tinha sido morto”, comenta.
Na altura era furriel miliciano de artilharia. Não tinha destacamento, porque foi sozinho. Isso fez com que tivesse uma entrada diferente em Moçambique.
“Deram-me um bilhete de avião e não sabia qual era a minha missão. Tinha 21 anos e os meus familiares ficaram apreensivos. Apesar de trabalhar em Lisboa eu era um moço da aldeia e também não sabia o que me esperava nem para onde é que ia. Era tudo sigiloso”, recorda José Vieira.
“Fui num avião civil. Era a primeira vez que andava avião. Não conhecia ninguém. Quando cheguei a Moçambique, à cidade da Beira, não sabia o que havia de fazer. Encontrei paraquedistas portugueses que estavam de serviço no aeroporto e disseram-me para apresentar nos Adidos. Mandaram-me para a messe de sargentos e aguardar por novas ordens. Ali aguentei oito dias, à espera. Recebo então a informação para ir apanhar o avião para Tete, a 27 de Dezembro”, relata.
Passou-se o mesmo em Tete, que era conhecido como o “cemitério dos brancos”. Foi para os Adidos à espera da colocação definitiva. Passaram-se dez dias até lhe dizerem que ia de boleia, numa aeronave uni-motor de distribuição de correio, para o quartel de Gago Coutinho, no norte do distrito de Tete, a três quilómetros da Zâmbia.
“Tive então a minha prova de fogo, numa povoação só com palhotas e um quartel feito de zinco. Tinha uma companhia de 120 homens à minha espera. Quando aterrámos, numa pista de terra batida, os homens – que já tinham um ano de guerra e muitos deles já estavam loucos por aquilo que tinham passado - abeiraram-se de mim e massacraram-me com perguntas: “O que é que vieste para aqui fazer? Não tiveste coragem de fugir? Vens para aqui morrer como nós?”, lembra o ex-militar.
“O que eu vi na cara deles foi pessoas já desumanas. Houve um cabo que me agarrou no braço, levou-me à enfermaria e disse-me: “Tu vens substituir aquele que está no caixão. Vens fazer a vez do furriel Leal, que está à espera de embarque para Portugal, onde será o funeral”. Fiquei abaladíssimo e disse para mim que já não voltava mais ao meu país”, refere.
O furriel Leal era atirador de artilharia e morreu num combate que a Frelimo fez ao quartel. “A Frelimo atacava-nos desde o território zambiano e nós não podíamos ripostar, porque não podíamos estar a atacar outro país”, sustenta.
“Fui chamado à secretaria pelo capitão José Lopes, comandante da companhia de artilharia (CART 7251), que pôs-me ao corrente do que eu ia fazer e disse-me que eu tentasse pelo menos salvar a minha vida. Tive o alferes Escoval como meu comandante de pelotão e como colega o furriel Poejo, que me deu apoio psicológico”, descreve.
Segundo José Vieira, “estávamos num ponto estratégico”. Era o único quartel junto à fronteira com a Zâmbia. A principal missão era não deixar a Frelimo entrar em Moçambique. Junto ao quartel havia três povoações de nativos – Gago Coutinho, Nhassaula e M’peua - com cerca de 700 habitantes, que se consideravam portugueses. “Estávamos ali a guardar as povoações dos ataques”, indica.
O ex-combatente conta que “estivemos debaixo de fogo várias vezes. Tínhamos um indiano, que passava a palavra da Frelimo para nós. Era o intermediário que nos avisava que íamos ser atacados”.
No dia 1 de Março de 1974 houve um ataque enorme ao quartel de Gago Coutinho, com 250 homens da Frelimo. Os canhões sem recuo, com morteiros de 122 mm, foram colocados no morro da fronteira com a Zâmbia e eram manejados por chineses. “A sorte do nosso quartel foi que só duas granadas é que caíram dentro do quartel, as outras passaram por cima, senão teria sido um morticínio total. Nós, como tínhamos sido avisados, também já estávamos nos abrigos subterrâneos”, afirma José Vieira.
Um elemento da Frelimo, que era fotógrafo e tinha uma máquina Zenit russa, foi a cerca de um quilómetro da unidade para tirar fotos do quartel intacto e depois com o quartel destruído e com a bandeira da guerrilha. Só que entregou-se aos portugueses e avisou-os do que ia acontecer. E os militares lusos prepararam-se. Quando começou o ataque, deixaram o inimigo aproximar-se do quartel, até ao primeiro arame farpado e ao anoitecer começaram a disparar. “Ficaram lá uns quantos agarrados ao arame farpado. Da nossa companhia ainda houve sete feridos”, garante José Vieira.
Deu-se o 25 de Abril em Portugal, mas a Moçambique “nunca chegou o cravo vermelho, pelo contrário, a situação tornou-se um inferno”, desabafa o militar, apontando que “na altura estava numa operação com 23 soldados e recebemos uma mensagem via rádio a dizer que havia um golpe de Estado em Portugal. Atirámos as armas ao ar, porque pensávamos que a guerra tinha acabado. Mas não”.
“Foram ataques e mortos todos os dias a seguir, porque era a pressão total da Frelimo para com o Estado Português, de forma a conseguirem mais rapidamente a independência”, faz notar José Vieira, frisando que “enquanto em Portugal se vivia uma euforia tremenda, em Moçambique os militares portugueses foram completamente abandonados pelo Estado”.
“Fomos nós, em cada quartel, individualmente, que fizemos as tréguas com os chefes ou comandantes das bases da Frelimo, porque senão ainda hoje lá estaríamos”, alega o ex-combatente.
A base da Frelimo mais próxima era comandada por José Moiane, destacado guerrilheiro. “Enviámos cartas, através dos nativos, para acabarmos com a guerra. Não havia quaisquer imposições. Queríamos era que nos deixassem de chatear, para ficarmos lá até o Estado Português nos chamar”, refere José Vieira.
Não foi fácil. O comandante Moiane não aceitou logo, só passados alguns dias. As tréguas só aconteceram na primeira semana de Maio.
No dia 17 de Maio, a companhia recebeu ordens para sair de Gago Coutinho e ir para a cidade de Tete. Em Julho, a companhia veio para Portugal, mas José Vieira ficou lá, porque não tinha ido com os restantes militares.
“Fui para outra companhia, na ZOT – Zona Operacional de Tete, como adido. A Frelimo ocupou quartéis portugueses e eu comecei a ajudá-la a desenvolver campanhas de alfabetização na cidade, junto de miúdos e idosos. Ajudei também na organização administrativa nos quartéis e em serviços de patrulha”, revela.
“Nos piquetes juntavam-se soldados portugueses e da Frelimo, o que era uma guerra. Os portugueses não queriam estar ao lado de quem tinham combatido. Mas quem mandava era a Frelimo”, argumenta.
“Viveu-se um período a que posso chamar de “guerra das minas”, porque a Frelimo não teve tempo para retirar as minas que tinha colocado nas estradas e de vez em quando a tropa portuguesa era atingida quando passava de carro por cima de alguma. Para não se entrar na barragem de Cabora Bassa, foi toda armadilhada à volta. Ainda hoje não se sabe onde está o “croquis” desse armadilhamento e muita gente morre”, manifesta.
Ficou em Moçambique até 17 Março de 1975, altura em que veio para Portugal, após ter recebido ordens para regressar.
Recebeu uma Cruz de Guerra (medalha), mas o que mais ganhou foi a amizade dos seus companheiros de guerra – o cabo Vieira, os furriéis Poejo, Amaral, Neves e Rodrigues, os alferes Escoval e Medeiros, o capitão José Lopes e tantos outros, que se juntam anualmente.
“Nunca fui atingido, mas o ferimento que trouxe foi a claustrofobia e o stress de guerra, de que sou tratado desde a minha vinda para Portugal”, afirma.
“Não choro por aqueles 10 mil que morreram há trinta e tal anos. Choro por aqueles 400 mil que hoje sofrem do trauma de guerra, dos quais 100 mil não têm dinheiro para pagar a medicação e 30 mil estão em cadeira de rodas. A América reconheceu os seus combatentes no Vietname. A Inglaterra reconheceu os combatentes que estiveram nas Malvinas. Nós até hoje somos abandonados pelo Estado Português”, desabafa.
Francisco Gomes

20 comentários até ao momento ↓
1 A. Justiça // Jul 9, 2008 at 10:19 pm
Meu Caro Amigo
Também fui Furriel Miliciano entre 1971-1973 especialista de armas, munições e explosivos em Mueda, Cabo Delgado, Moçambique. Sofro desse mal a que chamam “stress de guerra” e na tentativa de entender o que se passava enviaram-me para a ADFA onde fui entrevistado por psicólogos e aí, como último teste, ligaram-me fios a diversas partes do peito, costas e cabeça que por sua vez estavam ligados a um computador. Nunca soube que resultados obtiveram, o certo é que fui recambiado para o Julio de Matos e aí, entre consultas individuais e consultas de grupo, conheci outros ex-combatentes. Com o tempo aprendi que o meu, era um mal menor. Havia casos desesperantes, dezenas deles, só nos dois grupos que foram formados. Resta acrescentar que só depois me apercebi que algo de diferente se passava comigo pois antes não acreditava nessa “história” do stress de guerra. Os pesadelos, as irritações, o isolamento da realidade, as mudanças bruscas de humor, a mania de não me sentar de costas para uma porta, janela ou montra, o olhar para dentro dos sapatos antes de os calçar, o caminhar com olhares circunspectos e atentos em redor… enfim, toda uma panóplia de comprimidos e tratamentos para concluír… isto só passa quando fôr para os “bichinhos” da terra, até lá, aguenta, pois é um mal que só aos que do mesmo sofrem dão a devida importância e… a esses tomaram eles que não se fale no assunto. Embora comigo não tenha dado grandes resultados, experimenta passar para o papel, em forma de livro, as recordações desse tempo que nos fez perder a juventude e hipotecou o futuro.
Um abraço amigo.
2 Mário Inácio // Jul 9, 2008 at 10:51 pm
Sei perfeitamente do que sofres, sou como tu um ex-combatente e também sou dirigente da Associação Portuguesa de Ex-Combatentes Militares, com sede nacional em Sines, se precisares de desabafar ou de alguma ajuda, entra em contacto com o e-mail em referencia.
Um grande abraço de solidariedade.
3 Anónimo // Jul 10, 2008 at 10:09 am
Para não se entrar na barragem de Cabora Bassa, foi toda armadilhada à volta. Ainda hoje não se sabe onde está o “croquis” desse armadilhamento e muita gente morre”, manifesta.
ISTO É FALSO !!!!! EU ESTIVE LÁ.
4 Abreu dos Santos // Jul 10, 2008 at 3:01 pm
triagem anti-PTSD…
No passado domingo 06Jul08, ao ler, na revista “Domingo” do jornal diário “Correio da Manhã”, mais uma estória-stressada, de pronto coloquei a mim mesmo algumas dúvidas: “o coronel Oliveira, militar dos Comandos”, não comandou a EPA (Vendas Novas); o nome da referida povoação no norte distrital de Tete, não seria “Gago Coutinho”; e a mesma não fazia (faz) fronteira com a Zâmbia. Regressado a casa, pouco depois confirmei:
1. Júlio Faria Ribeiro de Oliveira, oficial oriundo da arma de Artilharia (e com a especialidade “comando”), nunca comandou a EPA; (os comandantes da EPA em 1972/73 e
1973/74 foram, respectivamente, o coronel de artilharia Aldemar Dias da Costa e o coronel de artilharia José Luís A. Ferreira Machado).
2. Vila Coutinho, junto à nascente do Revuboé e perto da fronteira nor-nordeste do istmo de Tete, pós-25Jun75 renomeada Ulongué, não fazia (faz) fronteira com a Zâmbia, mas com o Malawi.
Hoje 10Jul08, ao ler o “Jornal das Caldas Online”, cujo endereço
http://www.jornaldascaldas.com/index.php/2008/07/09/a-dos-francos-2/3544/
reproduz quase ‘ipsis verbis’ o texto publicado pelo CM, persistem algumas perplexidades:
1. O protagonista teria chegado ao aquartelamento da CArt7251/72 no dia 06Jan74, momento em que «houve um cabo que me agarrou no braço, levou-me à enfermaria e disse-me: “Tu vens substituir aquele que está no caixão. Vens fazer a vez do furriel Leal, que está à espera de embarque para Portugal, onde será o funeral”». Um 1ºCabo a
tratar tu-cá-tu-lá um Furriel Miliciano, recém-chegado ?!; e um militar falecido em 25Jul73, permanecia num “caixão” numa “enfermaria” de um aquartelamento em local inóspito e em clima tropical, decorridos mais de 5 meses?!
2. Adiante, o deponente afirma que pós-25Abr74 «foram ataques e mortos todos os dias a seguir»; mas não há registo de quaisquer “mortos todos os dias”, no distrito de
Tete, decorrentes de combates, minas, emboscadas ou flagelações inimigas.
3. Depois, que aquela CArt7251 teria em 17Mai74 recebido ordens de «marchar para Tete» e que «em Julho a companhia regressou a Portugal»; no entanto, há notícia da mesma só ter retirado de Vila Coutinho para Tete, durante a 2ª semana de Ago74.
4. Além disso, o mesmo «ficou em Moçambique até 17 Março de 1975» «a ajudar ex-guerrilheiros em campanhas de alfabetização», «na cidade [de Tete], junto de miúdos e idosos» e na Metrópole «recebeu uma Cruz de Guerra (medalha)»; a “alfabetização” frelimista, sabe-se o que foi; e no que respeita a ter sido «condecorado», tal “agraciamento” não consta em edição alguma do Estado-Maior do Exército.
Isto, quanto aos factos.
Quanto ao resto do depoimento, “no comments”…
5 José Morgado Vieira // Jul 28, 2008 at 6:25 pm
Ao ler a noticia do Jornal das Caldas sobre a Reportagem da “Minha Guerra” do Furriel Vieira, que é a minha pessoa, deparei-me com comentários, um pouco desvirtuados feitos pelo Sr. Abreu dos Santos . Ora vejamos: Reafirmo que quando entrei para Vendas Novas,Janeiro de 1973, tirar o curso de Sargentos o Comandante da E.P.A era o Coronel Oliveira.
2- Eu na reportagem nunca falei em Vila Coutinho, que faz fronteira com o Malawi, mas sim de Gago Coutino, que faz fronteira com a Zâmbia. (Quartel perto do Fingoé)
Quanto a Cruz de Guerra (metáfora), foi a amizade com os meus companheiros.
3- …cabo a tratar furriel por tu cá tu lá! È verdade, no meio do mato não “havia” meu furriel”.
4- …Também acredito que após o 25 de Abril e, Tete, não haja registos de mortos. Dou como exemplo o cabo Costa(?) da minha companhia, porque também não há registos dos militares Portugueses que lé estiveram a partir de 1973 em rendição individual e hoje procuram mostrar a verdade perante as Entidades do nosso País que também foram Ex-combatentes.
Respeito os comentários do Sr. Abreu dos Santos mas, penso que deveria procurar esclarecer-se melhor para o poder fazer e não como o pretendeu fazer: Isto é uma história de adormecer meninos! Sr. Abreu, respeite-nos…
6 José Morgado Vieira // Jul 28, 2008 at 6:30 pm
O Anónimo que desmente que a Barragem de Cabora Bassa foi toda minada em volta pelas tropas Portuguesas (Engenharia), para a Frelimo não a poder destruir, nunca lá esteve. È natural que tivesse estado sim mas na “cidade” do Songo com os Engenheiros Holandeses e outros quando na sua construção. O campo de minas nunca foi levantado, porque o croqui do mesmo perdeu-se…. Eram ser humanos e animais que as iam rebentando após o 25 de Abril….Eu estive lá na altura da construção, e também na cidade do Songo, Paraíso do Mato .
7 José Morgado Vieira // Jul 28, 2008 at 6:44 pm
…Ainda ao Sr. Abreu dos Santos: Será que a arma que eu tenho nas mãos acompanhado com militares da Frelimo,é uma G-3 e não uma Simonov? Como o Senhor Abreu quer desvirtuar todo o sofrimento dos combatentes vivos e dos que estão a morrer lentamente. Sr. Abreu apenas lhe peço isto: Se não acredita naquilo que eu digo, então ajude os militares que hoje sofrem, motivado por essa maldita guerra, e não têem dinheiro para comprar os medicamentos que necessitam . Obrigado por me ouvir e em nome dos combatentes.
8 Jose Morgado // Jul 29, 2008 at 10:57 pm
Se o senhor abreu dos santaos quer discutir este assunto entre em contacto comigo no endereço josemorgadovieira@sapo.pt
9 Jose Morgado Vieira // Set 19, 2008 at 3:11 pm
Lamento que o Sr. Abreu dos Santos, que comentou a minha noticia, tentando falseá-lo e depois do meu esclarecimento, o mesmo Senhor não ter coragem de reconhecer a mentira que tentou inpingir a quem o leu. Penso que o Sr. Abreu dos Santos ainda o irá fazer para mostrar a sua honestidade e indice de ser uma pessoa com conhecimentos e de bem.
10 Vitor Pereira // Set 24, 2008 at 9:02 pm
Este comentário dirige-se ao Sr.Abreu dos Santos, para lhe perguntar se conhece o Sr.José Morgado Vieira para ter a leviandade de comentar o que é dito por ele.
É que efectivamente Gago Coutinho existiu, hoje chama-se CASSACATIZA e faz fronteira com a Zâmbia, pois o dito Sr.Abreu dos Santos devia-se documentar melhor antes de demonstrar a sua ignorância em Geografia.
Pois ao referir-se sistemáticamente a Vila Coutinho, hoje Ulongué fronteira com o Malawi,
só demonstra que vai uma grande confusão na sua cabeça e que está muito pior dos que sofrem de stress de guerra. Pois o Sr.José Morgado Vieira nunca disse que esteve em Vila Coutinho.Sobre os outros comentários proferidos pelo Sr.Abreu dos Santos prefiro não comentar, ou seja não perder tempo.Sò mais uma opinião, tenha mais respeito por quem esteve no Ultramar, pois eu também lá estive.
11 Vitor Pereira // Set 24, 2008 at 10:26 pm
Em relação ao comentário anterior, pretendo rectificar após pesquisa mais pormenorizada que efectivamente Gago Coutinho não se passou a chamar, CASSACATIZA ( que existe, mas é mais ao lado) mas sim MALUERA.Com as minhas desculpas, mas se fizessem como eu, não tinham dito o que disseram. Obrigado
12 J P Campos // Set 30, 2008 at 4:29 pm
Caro Furriel Morgado Vieira
Li com atenção os comentários que fizeram ao teu artigo e friamente te digo que os “anónimos” e outros desclassificados deste País não merecem qualquer atenção! Já não te vejo desde Junho de 1975? Na verdade fui eu que te recebi em Tete, em MAI75, no BART 7220/74, 2ª CART, na ZOT, onde ficaste como adido! Tinhas-me dado instrução em Vendas Novas, no 4º turno de 1973, eras um dos Cabos Milicianos do meu pelotão (o outro CM era o “cenoura”). Lembro-me, como se fosse hoje, do meu 1º dia em Vendas Novas: devia-me ter apresentado de manhã e só cheguei ao fim do dia (por ter ficado a namorar em Lisboa) e passados nem dez minutos estava de farda de trabalho na parada, já de noite e sem sequer ter comido o que quer que fosse desde o meio-dia, pronto para a minha 1ª semana de campo! Foste quem me ajudou a pôr os “arreios” com muita calma, perante os berros e os insultos de outros cabos milicianos e do atarantado Aspirante Ferreira… Sempre te fiquei agradecido por essa ajuda sem nunca to ter dito… O CMDT da Bateria de Instrução era o Coronel Oliveira, “Oliveirinha”, da Arma de Artilharia e com o Curso de “Comando”. Foi efectivamente em Vendas Novas onde começámos a fazer a “guerra”! E foi em VN que comi mais ração de combate do que em Moçambique. Mas eu ainda estava cá no 25ABR! Só fui para o Fingoé em 74AGO03! E lembro-me da tua mobilização em DEZ73, em “rendição individual” e dos comentários que fizemos entre nós instruendos, que era mais um que não voltaria. E lembro-me em AGO74, do inicio da retirada dos Quartéis de fronteira e da chegada dos nossos camaradas, quase só com a roupa no corpo, de passagem pelo Fingoé, a caminho de Tete, depois das tentativas da FRELIMO, perante as câmaras de televisão de alguns países, tentarem tomar alguns quartéis e apanharem os nossos soldados “à mão”. Também te posso fazer chegar uma fotografia do José Moiane, CMDT da Frelimo a Norte do Fingoé e a quem, juntamente com 200 frelimos, começámos a alimentar em fins de Agosto de 1974, mesmo antes dos acordos de Lusaka! E poderemos falar ainda de outras coisas e apagar e ultrapassar as coisas más pois a camaradagem foi sempre BOA e ainda cá estamos.
13 Abreu dos Santos // Nov 4, 2008 at 3:30 pm
Exmos veteranos José Morgado Vieira (CArt7251/72-GACA2, ZOT 74-75), J.P. Campos (2ª/BArt7220/74-GACA2, ZOT 74-75) e Vitor Pereira,
Acabo de ler os v/comentários, supra publicados. Têm V.Exas razão: o que está escrito nos jornais, quer no “Correio da Manhã” quer neste “Jornal das Caldas”, é «Gago Coutinho».
Pelo lapso toponímico e consequente localização geográfica, agradeço que me relevem.
Respeitosos cumprimentos,
Abreu dos Santos (serviço militar no Ultramar, Nov71-Mar74)
nota: este “post”, tal como os precedentes comentários, é simultaneamente remetido ao site ultramar.terraweb.biz, com pedido de publicação na respectiva subpágina
http://ultramar.terraweb.biz/Noticia_JornaldasCaldas_JUL2008.htm
14 Manuel Aldeias // Nov 7, 2008 at 11:27 pm
Segundo o sr. Abreu dos Santos afirma tambem esteve no ultramar entre 1971 e 1974, houve muitos que eu conheço que tambem lá estiveram e dizem maravilhas desses tempos, segundo alguns dizem, foram umas autenticas ferias, pois nem todos estiveram em zona de guerra, já no que me toca não posso dizer o mesmo, para mim e para muitos a guerra foi coisa muito má.
Talvez para o sr abreu dos Santos tambem tenham sido umas férias o tempo que lá passou e que portanto o levem a pôr em duvida as declaraçôes do Vieira.
15 Sebastião Maia // Dez 8, 2008 at 5:20 pm
Amigo Vieira! Pela fotografia não consigo conhecer-te, embora, pelos locais citados, nos tivessemos encontrado de certeza. Prova disso são os comentários do ex-furr Campos, que ,esse sim, conheço bem! Estivemos juntos no Fingoé e na fotografia que ele cita, estou eu, ex-alf Maia, e o ex-cap Pacheco. De facto, alimentamos os guerrilheiros da Frelimo durante alguns meses, mesmo antes dos acordos de Luzaka.Quem levou pela primeira vez elementos da Frelimo ao quartel do Fingoé fui eu! Quanto ao facto de a barragem de Cabora Bassa estar minada a toda a volta, enfim, na altura era preciso, para protecção de quem lá estava! Como ficou depois de a 1ª comp. do bart/7220, só os oficiais e sargentos dessa companhia o poderão dizer. Eles encontram-se quase todos no convívio anual do batalhão e que me lembre nunca foi um assunto abordado.Provávelmente terás razão! É uma questão de perguntar ao ex -cap Ferreira da Silva que era o cmd da companhia.Quando quiseres “alinhar” no nosso convívio é só dizeres! Um abraço
16 Sebastião Maia // Dez 8, 2008 at 5:59 pm
Voltei atrás para ver o que tinhas escrito. Desde quando foi feita pelo exército português, no período a que te referes, uma campanha de alfabetização em Tete? Nunca!…
No que diz respeito aos “piquetes”, para quem não sabe, eram patrulhas conjuntas com a PSP local a Frelimo e “nós”.
Quem comandava a patrulha era o oficial do exército português, tinha ele toda a responsabilidade. Nunca, em muitas patrulhas feitas na cidade de Tete tive problemas de comando entre as diferentes forças envolvidas. Cada qual tinha a sua acção de intervenção:Militares-conflitos entre civis e militares:PSP-conflitos entre civis:Frelimo-conflito entre militares da Frelimo e civis.
Ao contrário do que aconteceu em várias localidades do ex-ultramar português em Tete nunca aconteceu nada de anormal, fruto de um comandante (da ZOT, de quem ninguem gostava ) que sempre impôs a soberania de Portugal até que Moçambique fosse independente! Era uma “besta” mas sempre cumpriu o que deveria ser cumprido! Nome do homem: Coronel Duarte Silva!…
Amigo! Vivemos todos nós experiências ,no mesmo tempo,iguais, mas diferentes, por isso não devemos generalizar. Nem todos os ex-combatentes têm stress de guerra, aliás, estou convencido que aqueles que mais problemas têm não se manifestam porque não têm modo de o fazer! Esses sim deveriam ser ajudados.
Um abraço
17 Jose Morgado Vieira // Dez 12, 2008 at 1:16 pm
Acabei de ler os comentários do Ex-Alferes Maia. Lembro-me do nome mas não da pessoa. Apenas agradecer os comentários sobre o meu artigo e esclarecer um pouco sobre a campanha de alfabetização: A Campanha não foi feita a nivel oficial mas, sim a nivel particular e de voluntariado. Eu como na altura vonvivia com dois ou três comissários da Frelimo, fui convidado e aderi. Comecei a ser visto , olhado e tratado de outra maneira pelos Comissários e Ex-guerrilheiros da Frelimo. Eu queria era Paz durante o espaço de tempo até regressar ao Continente. Já agora também dou ao conhecimento que por estes motivos, fui convidado pela Frelimo a ficar lá em Tete três anos a dar Formação e com um ordenado que não tinha nada a ver com os sete mil e seiscentos escudos que ganhava como Furriel. Caro amigo e ex-combatente um abraço forte, e temos que ajudar aqueles que lá estiveram como nós e que hoje não têm familia e, apenas a nós. Um bem haja. Sempre ao dispor. Telem:91.9793381. Caixa Agricola Caldas da Rainha: 262.949770.
18 Teves Costa // Dez 13, 2008 at 1:41 pm
Caro Vieira,
Sendo um dos veteranos de tempo inteiro da CART 7251 que partilhou um quarto no aquartelamento de Gago Coutinho ( já na nossa altura conhecido pelos locais como Maluera ou terra da fronteira) com o malogrado Leal e Poejo, fico de certo modo surpreendido, e isto com o devido respeito pelo mal de que padeces que infelizmente aflige muitos dos militares que estiveram em Africa, com as tuas declarações e registos de memória. Digo-te que felizmente as boas memórias duma camaradagem sadia, duma terra de gente essencialmente boa, e de uns por do sol e auroras deslumbrantes atenuam e apagam as muito pouco más memórias que tenho desses tempos. Não sofro nem nunca sofri de stress de guerra, acredito que muita gente sofra e que acabe por internalisar acontecimentos e experiencias que de facto não viveram mas que o contacto com outros que as viveram e o natural desvio da realidade as faça sentir como se de facto as tivessem vivido! É uma questão psicológica de factos e enredos!
Vamos a factos, o grande ataque a te referes teve de facto lugar em 1 de Março de 1973 e não 1974.
Provocou alguns feridos ligeiros, e um mais grave o Alf. Almeida que ainda hoje tem estilhaço duma granada de RPG 7 na cabeça, mas sendo um musicologo famosissimo penso que não sofra de stress de guerra! O rescaldo foi pior, pois numa operação de helitransporte com uma companhia de comandos tivemos a perca de um soldado e um ferimento grave de outro e o Capitão(?) recusou continuar na operação e pediu a evacuação. Ficou detido no aquartelamento até ser substituido pelo Capitão Moleiro ( proveniente do Batalhão do Fingoé.)
Ate 25 de Julho de 1973 para alem de termos desmontado duas minas não houve nada, nesse dia deu-se o ataque que vitimou o malogrado Leal sem mais consequencias, metade da companhia estava fora numa operação com o Capitão Moleiro, eu estava nesse grupo, que regressou 24 horas depois.
Dados problemas de transporte, a urna com o corpo do Leal ficou guardada numa pequena casa-arrecadação da administração civil fora do perimetro do arame farpado do aquartelamento. O corpo do Leal foi efectivamente repatriado em Setembro de 1973 uns meses antes da tua chegada. Quem de facto substituio o Leal foi o Fur. Joao Duarte, madeirense, baixote, de bigode, um tipo com imensa piada. Tu terás sido o substituto do Lavoura um homem grande em todos os aspectos, que foi evacuado por motivos de doença para a Metropole.
A partir dai efectivamente não tivemos mais ataques, nem mais emboscadas nem mais minas, iamos ocupando o nosso tempo com as tarefas normais, mais escola regimental liderada pelo Fur. Ribeiro que conseguio o diploma da 4ª classe para muitos dos nossos soldados, incluindo os Moçambicanos de recrutamento local. Tudo isto temperado com uns bons jogos de futebol e voleibol a doer ( seja, quem perdesse pagava o petisco! lembro-me que tinhas muito jeito para a bola!)
Em Agosto de 1974 fomos ao Fingoe de avioneta civil ( bi motor) para recolher uma enorme quantidade de camionetas para transportar o material desactivado da nossa unidade, e de facto enquadrar uma companhia “Checa” ( julgo que tenhas feito parte desse grupo) que se juntou a nos na coluna, lembro-me que tivemos uma mina com um “tempero” de fornilho já perto de M’peua que eu desactivei com um petardo de 1kg de TNT!
Em agosto de 1974 fizemos a coluna para Tete onde ficamos até Outubro. Durante esse periodo tivemos a infelicidade de mais uma baixa, o Cabo Dias, e alguns feridos, por rebentamento de mina anticarro, numa coluna de Tete para outra povoação ( isto sim resultado da falta de croquis de localização das minas). Em Outubro de 1974 fomos para a Beira onde passamos uns dias até à repatriação, onde alguns de nós, incluindo este teu ex camarada, se divertiram em grande com o que aquela linda cidade tinha para oferecer em todos os aspectos!… mesmo no pós 25 de Abril!
Confesso que partilho o pensamento do ex camarada Sebastiao Maia, que de facto as experiencias e o sofrimento de cada um devem ser respeitados mas não generalizados, e que devemos dentro do possivel fazer um esforço para separar factos de enredos!
Recebe um abraço deste teu ex camarada e os desejos que vás passando o melhor possivel.
Teves Costa
19 jose morgado silva vieira // Dez 19, 2008 at 7:21 pm
Estou surpreendido com a tua “aparição”. Que é feito de ti? Tantos de nós comentamos quando nos encontramos anualmente: Onde se encontra o Teves Costa? Estou contente por saber ques estás bem, pelo menosdá a entender isso. Correspeito à minha pessoa vou passando dentro do possivel mas, numa luta de sofrimento e ao mesmo tempo de revolta. Na verdade, cada pessoa é uma pessoa e devemono-nos respeitar mas não invalida que possamos ajudar alguns ex camaradas que se encontram em grandes dificuldades e que o Estado Português abandonou. Para ti Teves, gostei que aprecesses e um abraço muito forte.
20 avelino azevedo // Jan 4, 2009 at 2:06 am
Meus Caros:
Estive no Fingoé de 1972 a 1974 como alferes miliciano enquadrando o Corpo de Milicias e por força das minhas funções conheci Gago Coutinho e todos os aldeamentos da que era circunscrição da Marávia, ora utilizando as colunas militares, ora utilizando um meio mais cómodo que se chamava helicópetero.
Estive em Gago Coutinho de onde saí,por sorte, no dia anterior ao ataque de 1 de Março de 1973 e não 1974.
Naturalmente que sei bastante do que se passou entre 1972 e 1974, por isso contesto algumas das afirmações, confirmo outras e muitas teria acrescentar. Não o vou fazer, mas sugiro que nos possamos encontrar algures , não para recordarmos as coisas más, mas para falarmos do bom que também houve, confraternizarmos e quem sabe estabelecer relações de amizade.
Um abraço para todos
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