O Vaticano não deverá considerar “milagre” a cura de uma criança portuguesa nascida na Suíça e baptizada aos sete meses na Igreja do Imaculado Coração de Maria, no Olho Marinho, em Óbidos, que sofria de diabetes, e que a família acredita que passou a ter uma vida normal depois de orações, quando assistia pela televisão à transmissão das cerimónias de beatificação de Francisco e Jacinta Marto, Pastorinhos de Fátima, a 13 de Maio de 2000.
Diagnosticado com um mês de vida como tendo diabetes de tipo 1 (insulina-dependente), Filipe Moura Marques esteve internado no hospital de Lausanne, na Suíça, cerca de três meses e depois de regressar a casa teve de ser acompanhado diariamente pelos pais, que administravam-lhe insulina durante dois dias por semana e tinham de pesar cuidadosamente a comida, para não ultrapassar a quantidade de calorias permitida.
A três dias de completar o primeiro aniversário, encontrava-se com a avó paterna, Rosa Matos, em Saviesse, aldeia perto de Sion, onde residiam os progenitores, emigrantes há mais de uma dezena de anos.
A avó do bebé presenciou a altura em que a mãe da criança pegou nele e se ajoelhou em frente à televisão, quando decorria a transmissão televisiva. “Ela é muito católica e estava a ver a cerimónia pela RTP. Eu estava sentada no sofá e na altura em que era dada a bênção aos doentes, ela pegou na criança ao colo, ajoelhou-se e rezou durante vinte minutos”, contou Rosa Matos ao JORNAL DAS CALDAS, recordando que o bebé “esteve sempre a dormir”.
“O meu filho dizia que se não houvesse socorro, a criança ia desta para melhor. Ele nunca se convenceu de que haveria cura”, declarou Rosa Matos. E o milagre parecia ter acontecido, porque passado pouco tempo a criança estava curada.
Assumindo-se “católica” e acreditando que terá havido um milagre, em 2004 a avó relatava ao JORNAL DAS CALDAS que “com cinco anos, é um rapaz completamente normal, irrequieto como quase todos na sua idade, frequenta a pré-escola, adora guloseimas e pão com chocolate”.
No passado fim-de-semana o cardeal José Saraiva Martins, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, revelou em Fátima a dificuldade em confirmar o milagre que sustentava o processo de canonização (que os levaria a serem considerados santos) dos Pastorinhos Francisco e Jacinta Marto.
O alegado milagre, envolvendo a eventual cura de diabetes, não está devidamente fundamentado para ser considerado como existindo intervenção divina.
“A cura, segundo o parecer dos médicos da Congregação para a Causa dos Santos, não pode ser considerada um milagre”, indicou.
A Congregação conta com 60 médicos especialistas que dão pareceres sobre alegadas curas, indicando se existe “alguma explicação científica” para esses casos.
Francisco Gomes

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