“O 25 de Abril na primeira pessoa”
Alguns alunos da Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro receberam, no passado dia 28, na biblioteca do estabelecimento de ensino, uma aula ao vivo sobre o 25 de Abril.
Imagens, documentação e relatos de rádio de alguns episódios da revolução fizeram parte deste evento, intitulado “O 25 de Abril na Primeira Pessoa”, dinamizada por Leonel Cardoso, José Clímaco e João Pereira. As memórias dos três oradores sobre alguns dos acontecimentos de 1974 cativaram os estudantes.
O ex-professor desta escola, Leonel Cardoso, que na altura da revolução estava a cumprir a tropa obrigatória, falou das várias causas que contribuíram para o 25 de Abril, como as Guerras Coloniais e o facto de terem sido recrutados militares das universidades, o que veio trazer aos quartéis sangue novo, mais revolucionário.
Quanto às declarações do Presidente da República em relação à ignorância de muitos jovens sobre o 25 de Abril, Leonel Cardoso referiu que “o 25 de Abril não é contado em casa aos jovens e ainda não houve uma história dividida em partes sobre o 25 de Abril, de como é que apareceu e como é que se deu”. Segundo este ex-combatente, “no dia em que os intervenientes com força do 25 de Abril contarem a verdade sobre os factos, sem quererem protagonismo, talvez um dia se consiga escrever a história verdadeira da revolução e da descolonização”, disse.
José Clímaco, professor neste estabelecimento de ensino, era militar em Santarém na altura da revolução. Participou na coluna que saiu de Santarém até Lisboa no dia 25 de Abril de 1974. “Às 22h55 é transmitida a canção “E depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, pelos Emissores Associados de Lisboa, emitida por Luís Filipe Costa”, recordou, acrescentando que “foi um dos sinais previamente combinados pelos golpistas e que desencadeou a tomada de posições da primeira fase do golpe de Estado”.
De acordo com o professor, “o segundo sinal foi dado às 0h20, quando foi transmitida a canção “Grândola Vila Morena”, de José Afonso, pelo programa Limite, da Rádio Renascença, que confirmava o golpe e marcava o início das operações”.
“Nessa altura houve uma revolução no quartel, fomos acordar todos os tropas e contámos-lhes o que estava acontecer e demos-lhes à escolha se queriam ir para Lisboa ou não, e todos foram para o nosso lado”, relatou, adiantando que no caminho para o Terreiro de Paço “houve momentos de tensão, não posso negar, mas todos juntos e com a ajuda do povo, conseguimos levar a melhor”.
Num relato ao vivo com os tiros a ouvirem-se, José Clímaco lembrou que foi ele quem disparou “para a porta do Quartel do Carmo”, assistindo depois à rendição dos membros do Governo que se tinham refugiado naquela unidade.
O professor não esquece a coragem do Alferes Alfredo Sotto Mayor, que na altura “recebeu ordem para disparar fogo contra nós e recusou de imediato”. José Clímaco anda à procura desse homem para poder homenageá-lo e agradecer a atitude que ele teve nesse dia.
Para este docente, o que lhe marcou mais foi a forma como tudo correu bem e de uma forma pacífica. “Podíamos não ter chegado a Lisboa porque as nossas viaturas eram velhas”, disse, recordando que a sua viatura avariou quando chegaram ao Quartel do Carmo.
João Pereira, que também já deu aulas na Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, fez o relato da sua participação no 16 de Março de 1974, a histórica data em que decorreu a tentativa de golpe militar contra o regime, onde só o Regimento de Infantaria nº 5 das Caldas da Rainha marchou sobre Lisboa. Segundo o ex-combatente, que nessa altura foi preso, “a meta era ocupar o aeroporto da Portela, não vingou mas foi muito importante para a preparação da Revolução dos Cravos. Apesar de ter fracassado, o movimento de 16 de Março permitiu lançar as bases para aquele que viria a ser o dia da mudança”, afirmou, indicando que “os cerca de 200 militares regressaram então para as Caldas onde acabaram por se render e foram feitos prisioneiros”.
Trinta e quatro anos depois, os traços deixados na memória pelo 25 de Abril são partilhados num evento levado a cabo pela biblioteca da Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro.
Marlene Sousa

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